Contornos - Educação e Pesquisa

02 abril 2012

Existe dupla negação na língua portuguesa?

Tive essa dúvida por muito tempo, pois a resposta que me davam não me convencia. A língua portuguesa é muito rica, temos uma quantidade muito maior de vocábulos e, consequentemente, de combinações e diversidade de composições do que a língua inglesa, por exemplo. Dessa forma, temos que observar que as línguas possuem diferentes estruturas e que não podem ser pensadas da mesma forma.

Um dia vi, por acaso, no canal Futura, o famoso prof. Pasquale falando justamente sobre isso. Segundo ele, essa dúvida vem de uma confusão com a estrutura da língua inglesa, que não admite a dupla negação. As línguas derivadas do latim (como o português, o espanhol e o italiano) podem sim negar duas vezes na mesma frase.

Como não consegui encontrar o vídeo dessa aula do Pasquale (era bem antigo), indico um trecho de um texto dele na Folha de São Paulo em 2009, comentando sobre uma questão do vestibular da Unicamp cujo tema seria justamente este.

Refiro-me à dupla negação ("Não há nenhuma medida..."). Não são poucas as mensagens que recebo a respeito disso ("É possível negar duas vezes?"; "Menos com menos não dá mais?"; "Se eu digo que não encontrei ninguém, isso não significa que eu encontrei alguém?").
Devagar com o andor, caro leitor. Nem pensar em fazer a tal conta. Se eu digo que não vi ninguém, isso significa que vi zero pessoa, nada, pessoa alguma, ninguenzinho mesmo.
A dupla negação como a que fazemos, que realmente não ocorre em inglês, é mais que comum em italiano, espanhol... Nossa velha frase "Não conheço ninguém", por exemplo, em espanhol corresponde a "No conozco a nadie". Em italiano, corresponde a "Non conosco nessuno". Em ambas se nota a dupla negação ("no" e "nadie", em espanhol, e "no" e "nessuno", em italiano). É isso. 

Foto por Virtual EyeSee - https://www.flickr.com/photos/virtualeyesee/


25 fevereiro 2012

Elaboração do projeto de pesquisa: a definição do objeto

O primeiro capítulo de Triviños (2001) dedica-se à tarefa de elaboração de um projeto de pesquisa. O que um pesquisador precisa pensar para desenvolver o seu projeto? O autor defende que essa elaboração seria constituída das seguintes etapas:

a) definição do objeto de estudo;
b) opção pelos aspectos metodológicos ou abordagem metodológica do estudo;
c) cronograma de execução;
d) anexos;
e) referências.

Neste primeiro momento, vamos desenvolver um pouco sobre a primeira etapa: a definição do objeto.


A definição do objeto (ou problema de pesquisa) é a etapa na qual o pesquisador irá decidir e delimitar o que deseja estudar. Para começar, é essencial que realize uma pesquisa bibliográfica sobre o tema, fazendo uma seleção de materiais em bibliotecas, acervos online e outras fontes (veja mais sobre fontes de referência).

É importante conhecer outros estudos sobre a temática e observar as bases teóricas nas quais estão sustentadas as ideias de cada autor. Assim é bem provável que o pesquisador visualize o potencial de outros ângulos do problema ou a possibilidade de uma nova proposta de abordagem teórico-metodológica para a questão de interesse. Nesse momento, é possível que a primeira ideia de problema tenha sido consideravelmente modificada, pois o autor tende a obter novas propostas de estudo a medida em que aprofunda o seu conhecimento na questão. Entretanto, em um dado momento, é preciso ter o cuidado de delimitar a questão e seguir com o foco nela. 

Nessa etapa, uma aproximação empírica é bastante indicada. A pesquisa exploratória deve constar no projeto, podendo ser apresentada como um ensaio da aproximação que se realizará posteriormente (o trabalho de campo). O trabalho de campo exploratório também auxilia no desenvolvimento de questões, objetivos e abordagens complementares à pesquisa bibliográfica.

Sobre as questões teóricas, Triviños assume que as teorias que escolhemos para sustentar ou refutar uma hipótese ou argumento estão unidas à nossa maneira de apreciar o mundo. Temos concepções gerais da realidade, nossas maneiras de pensar sobre o mundo. Tudo isso está ligado aos argumentos que vamos aceitar como verdadeiros e utilizar na nossa definição e argumentação sobre dado tema. 

Dessa forma, no texto científico, buscamos definir pormenorizadamente cada conceito de uma teoria, com os entendemos e como cabem na problemática. No estudo das referências da temática de interesse, possivelmente o pesquisador encontrará tendências teóricas gerais (positivismo, marxismo, estruturalismo, pós-estruturalismo, estrutural-funcionalismo, etnometodologia...) e teorias específicas (construtivismo genético de Piaget, teoria do discurso de Foulcault, materialismo histórico de Marx etc) as quais irão inspirar o autor na abordagem do problema de pesquisa. 

Além disso, as escolhas teóricas também podem orientar os aspectos metodológicos, pois teoria e método estão ligados no sentido que o paradigma determinará a matiz dos resultados. Dito de outra forma, as teorias "pedem" determinados enfoques práticos do problema. Mas, a partir daqui, estamos falando do que Triviños considera como a segunda etapa da elaboração do projeto, a  abordagem metodológica do estudo, que desenvolveremos mais adiante. :)

Referência:

TRIVIÑOS, Augusto Nibaldo Silva. Cadernos de Pesquisa Ritter dos Reis - vol. IV. Bases Teórico-Metodológicas da Pesquisa Qualitativa em Ciências Sociais. 2ª ed. Porto Alegre: Ritter dos Reis, 2001.

13 fevereiro 2012

A construção dos procedimentos metodológicos em projetos de pesquisa


Os procedimentos metodológicos constituem a fase final de apresentação de um projeto de pesquisa. Após ter esclarecido as facetas do problema, sua fundamentação teórica (em que argumentos irá se sustentar/visões que irá refutar) e revisão bibliográfica (o que outros autores já escreveram sobre o assunto), é hora de demonstrar como o problema será abordado empiricamente. Para tanto, é preciso apresentar como isso será feito na seção dos procedimentos metodológicos.

Para construir a apresentação dos seus procedimentos, pense sobre os seguintes elementos e tente responder às perguntas seguintes:

1. Métodos de investigação: como será estruturado o trabalho? Qual o foco empírico? Ex.: estudo de caso, survey, pesquisação etc.

2. Fontes e acesso aos dados: quem se irá entrevistar/questionar? De que forma? Com qual instrumento? Se os dados são secundários, de onde vêm? Se as fontes forem pessoas, como serão contatadas e abordadas? 
3. Características da amostra: como será feito o delineamento da amostra? Ex.: aleatória, estratificada, por cotas etc. Qual é o público-alvo? [Veja: Exemplos de modelos de amostragem]
4. Coleta/produção de dados: a partir de que técnica se obterão os dados? Ex.: observação, entrevista, questionário, história de vida, pesquisa documental etc. Como será sistematizado o trabalho de campo? No trabalho de campo, as falas serão anotadas/gravadas, filmadas? Como os dados serão organizados? Será utilizado algum software de apoio?
5. Análise dos dados: como os dados serão analisados? Que técnica/perspectiva será utilizada para análise? Por quê? Será utilizado algum software específico para este trabalho? Ex.: NVivo, Atlas.ti, MaxQDA, MSExcel, SPSS etc).
6. Instrumentos de coleta de dados: o que será utilizado para produzir os dados? A entrevista ou o questionário será mais ou menos estruturado? Como o instrumento será distribuído e aplicado?

Descrever claramente como a pesquisa empírica será realizada o auxilia a obter um melhor "controle" sobre o trabalho e demonstra conhecimento sobre o processo de pesquisa, além de reconhecer a responsabilidade do pesquisador para com os dados e sua manipulação.

Fonte: anotações produzidas em aulas da disciplina Projeto de TCC em Sociologia, ministrada pela profª. Cinara Rosenfield em 2011/2 para o curso de Ciências Sociais da UFRGS.

Veja também: 
A construção da metodologia na pesquisa social
Elaboração do projeto de pesquisa: a definição do objeto

20 janeiro 2012

O que é SOPA e porque é importante entender

SOPA (Stop Online Piracy Act) é um projeto de lei apresentado à Câmara dos Deputados dos Estados Unidos em outubro de 2011 como um complemento do Protect IP Act (PIPA), apresentado em junho do mesmo ano.

Trata-se de uma medida que propõe o bloqueio de acesso a sites considerados como violadores da propriedade intelectual, o que significa que qualquer site que for acusado de "roubar"  imagem, vídeo, música, texto ou software de "propriedade" de algum cidadão ou empresa estadunidense (protegido pela lei de copyright) será bloqueado e  terá todas as referências em buscadores e outros sites imediatamente apagadas.

A justificativa é combater a pirataria online, o problema é que, com a SOPA, os sites primeiro seriam condenados e bloqueados (em até 5 dias após as acusações) e só depois poderiam entrar com a defesa, dando margem para injustiças que causariam enormes prejuízos, além de inverter um preceito básico do Direito, no qual o acusado só é condenado após um julgamento, onde se apresentam as provas do "roubo" e o acusado tem a chance de se defender.

Apesar de serem projetos de lei dos Estados Unidos, afetam diretamente o modo como navegamos e utilizamos a internet aqui no Brasil e em todo o mundo, uma vez que os principais buscadores, provedores de conteúdo e redes sociais estão sediados nos EUA.

Na última quarta-feira, 18 de janeiro, pelo menos 10 mil sites só nos EUA, entre eles a Wikipedia, protestaram contra os projetos.

Se você preza pelo modo como atualmente utilizamos a internet, como ferramenta de compartilhamento e busca de informação e cultura, é importante discutir sobre o assunto. Vale também lembrar que este site possui a  licença Creative Commons, que permite o livre acesso e distribuição dos conteúdos publicados, desde que mencione a referência. :)

Alguns artigos sobre o assunto:

SOPA é o mesmo que vetar palavrões no dicionário, diz especialista
O que é o SOPA (Stop Online Piracy Act) e porque ele é tão perigoso