Contornos - Educação e Pesquisa: sociologia
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23 janeiro 2025

“Diálogos Contemporâneos das Juventudes”: explorando o componente curricular eletivo e suas possibilidades de aprofundamento de conceitos sociológicos

Este texto visa expor um trabalho apresentado no VII Congresso da VI Congresso Nacional da Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais (Abecs)

Trata-se de um relato de experiência sobre uma disciplina chamada “Diálogos Contemporâneos das Juventudes”, que ministrei de 2022 a 2024, na implementação do “Novo Ensino Médio” na rede estadual de Santa Catarina. Em 2024 houve uma nova reforma, que excluiu a disciplina do currículo, por isso me refiro a ela sempre no passado. Apesar de ser pessoalmente favorável ao retorno da carga-horária para a formação geral básica, foram anos de preparações e desenvolvimento de atividades com esse foco, as quais acredito que podem ser replicadas em outros componentes de Ciências Humanas, para além da Sociologia, e também como projetos interdisciplinares.

O componente “Diálogos Contemporâneos das Juventudes”

O componente curricular fez parte de um conjunto de 52 componentes curriculares eletivos, que foram criados a partir de pesquisas com jovens e comunidades em 120 escolas-piloto. A ideia era de que os estudantes tivessem a oportunidade de votar nas disciplinas que desejassem cursar e as mais votadas seriam oferecidas semestralmente. O foco principal prescrito para esse componente curricular foi estimular a pesquisa e a discussão sobre os desafios e características dos diferentes grupos juvenis, ajudando os alunos a refletirem criticamente sobre os estereótipos sociais que os cercam.

O desenvolvimento da disciplina por mim na escola considerou a proposta curricular catarinense e os interesses dos estudantes das turmas. Os conteúdos abordados incluíram objetos de aprendizagem como relações sociais, interdependência, instituições sociais e cultura, sempre com uma conexão com a Sociologia. As aulas foram organizadas em blocos que combinaram teoria e prática, permitindo que os alunos se envolvessem ativamente no processo de aprendizagem, com uma parte expositivo-dialogada e outra parte mais prática.

Entre os temas explorados estão as relações de gênero, a interseção entre juventude e violência e as novas dinâmicas do mercado de trabalho. Além disso, as culturas digitais e as mídias sociais foram discutidas, promovendo uma reflexão sobre a confiabilidade da informação e os riscos do ambiente virtual, como ciberbullying e crimes cibernéticos.

Avaliação e Reflexão

As avaliações foram realizadas por meio de atividades práticas e dinâmicas em sala de aula, culminando em projetos que envolvem a construção de campanhas informativas para estudantes mais jovens. Uma das atividades de destaque foi a análise de dados do Atlas da Violência, que permitiu aos alunos compreenderem a vulnerabilidade da juventude em relação à violência.

Os estudantes também tiveram a oportunidade de entrevistar pessoas de diferentes gerações, comparando suas experiências de juventude e analisando como as interações sociais mudaram ao longo do tempo. Essa abordagem não apenas enriqueceu o aprendizado, mas também incentivou um diálogo intergeracional.

Com a implementação contínua de ajustes e melhorias, essa eletiva se destacou como um espaço privilegiado para o desenvolvimento do interesse dos jovens por temas sociais, buscando sempre a formação de cidadãos críticos e participativos.

 Abaixo os slides da apresentação no evento:



18 setembro 2019

Gêneros textuais e criticidade

Participei recentemente um curso sobre diferentes gêneros textuais em sala de aula e nele tive a oportunidade de pensar a utilização de 4 diferentes gêneros nas aulas de Sociologia: (1) tirinhas, (2) charges, (3) pinturas e (4) propagandas.
Segue o que analisei como registro e socialização para docentes do componente.  ;)

1. Tirinha

Disponível em: https://canaldosbeatles.wordpress.com/2017/10/17/as-aventuras-de-mafalda-com-os-beatles/

A tirinha de Quino mostra o início de uma movimentação de pessoas em torno de uma informação que Mafalda aparentemente desconhecia, mas decidiu ir junto para ver o que era. Deparou-se com uma multidão cercando uma menina com olhares de espanto e ela, constrangida, com o pensamento “Quem espalhou que eu não gosto dos Beatles?”.
É possível relacionar a tirinha com alguns conceitos da obra de Émile Durkheim, como fato social, instituições sociais, coercitividade e coesão social. A tirinha pode ser um instrumento para ilustrar como ocorre a coercitividade, de modo que quando algo foge dos padrões sociais aceitos no momento, tende a ser considerado motivo de estranhamento, espanto ou perseguição.
No caso, além da coerção ocorrer em torno da menina que não gosta dos Beatles, está presente também quando Mafalda e várias das pessoas ao redor se deslocam para o mesmo ponto aparentemente sem saber do que se trata. Entende-se que a movimentação de uma multidão contribuiu para aguçar a curiosidade de Mafalda sobre o que as movia.
Essas questões podem ser discutidas com mais exemplos do que popularmente se chama de “comportamento de manada” ou “maria-vai-com-as-outras”, fatos sociais presentes no cotidiano dos adolescentes inclusive nos ambientes virtuais.

 2. Charge 


Legenda: “DEUS ACIMA DE TODOS.”
Autor: Savron. Publicada em 23/09/2019 no perfil do artista no Instagram. Disponível no link: https://www.instagram.com/p/B2wjBxlHq_V/?igshid=hf0r6j2z4xtu


A charge de Savron publicada em 2019 retrata uma montanha de corpos de pessoas negras sem feições, ensanguentados e empilhados embaixo de uma representação da estátua do Cristo Redentor. O sangue se acumula na base da pilha de corpos, o que se relaciona com a forma como esses corpos são tratados, mais um em uma montanha. Não há outros elementos ou texto verbal. A crítica da charge remete aos repetidos casos de assassinatos de moradores de comunidades do Rio de Janeiro dominadas pela milícia, o tráfico e a ostensiva presença policial.
Na escrita em ambientes virtuais, letras maiúsculas significam que a pessoa está gritando, o que enfatiza o argumento que a charge traz com a imagem: a relação entre religião, poder, política e a atuação do Estado por meio da ação policial nas comunidades em situação de vulnerabilidade social.
3. Pintura


Pawel Kuczynski é um artista polonês cuja obra nos convida a refletir sobre o modo como utilizando as mídias e novas tecnologias de comunicação e informação.

Ao analisar uma das obras de Kuczynski em uma proposta didática no componente de Sociologia no Ensino Médio, várias questões podem ser discutidas, como o papel social do jornalismo, a grande mídia, as mídias independentes, as dinâmicas das redes sociais, os linchamentos virtuais, entre outros assuntos emergentes decorrentes da relação entre comunicação, novas tecnologias, sociedade e violência.



É possível ainda fazer relação com o texto de Bertold Brecht “Há muitas maneiras de matar”, pensando nas diferentes formas de violência que podem ocorrer nos ambientes virtuais.
“Há muitas maneiras de matar. Podem enfiar-te uma faca na barriga, arrancar-te o pão, não te curar de uma enfermidade, meter-te numa casa sem condições, torturar-te até a morte por meio de um trabalho, levar-te para a guerra, etc. Somente poucas destas coisas estão proibidas na nossa cidade.”

 4. Propaganda

A peça analisada a seguir é uma campanha publicitária de enfrentamento e reflexão sobre a construção social do machismo pelo governo do Equador.


Considerando a visão de Charaudeau (2008), podemos observar que a peça mobiliza o emocional demonstrando a forma como somos impelidos desde antes de vir ao mundo pela família e pela sociedade a seguir determinados padrões de gênero. Tudo o que se refere à menina tem a cor rosa e remete à beleza física, delicadeza e submissão, enquanto o menino utiliza a cor azul e apresenta agressividade, impaciência, inclinação aos esportes e à violência. Ao longo do vídeo estão presentes vários objetos que remetem metaforicamente aos papéis de gênero, como bonecas, roupa de princesa, produtos de beleza, tanque de guerra e armas de brinquedo. A música que embala o comercial tem tom jocoso, o que demonstra como os comportamentos em questão são reproduzidos sem reflexão e com o incentivo das famílias.

As imagens e símbolos não verbais têm grande influência na construção do argumento, especialmente quando os jovens adolescentes recebem um presente: um par de algemas para a menina e luvas de boxe para o menino, remetendo às posições de submissão e opressão, respectivamente. A mensagem não deixa dúvidas que as mulheres estão em posição de desvantagem nessa relação, que vai se desenvolvendo até culminar no matrimônio e a geração de descendentes desse casal.

O narrador é um homem e seu tom é grave, cujo ethos associa a ideia a uma questão urgente a ser pensada por todos os gêneros, ou seja, não é algo apenas de interesse das mulheres. O orador aparece apenas no final do vídeo com o comando “o machismo é um mal que se aprende, está em ti poder eliminá-lo. Reage, Equador, machismo é violência”.

Link para o vídeo: https://youtu.be/NTxUWQ2IE6s

Referência:
CHARAUDEAU, P. Linguagem e discurso: modos de organização. São Paulo: Contexto, 2008.

29 janeiro 2019

[Sugestão de artigo] Órbitas sincrônicas: sociólogos e intelectuais negros em São Paulo, anos 1950-1970

De Mário Augusto Medeiros da Silva

Resumo
Procuro discutir a aproximação entre uma geração de sociólogos paulistanos, pesquisadores das relações raciais no Brasil, entre os anos 1950 e 1970, com ativistas e intelectuais negros de São Paulo. O foco se dá nas aproximações entre Florestan Fernandes e a Associação Cultural do Negro, permitindo retroceder e avançar no tempo, vislumbrando-se outras figuras igualmente importantes como Roger Bastide, Virgínia Leone Bicudo, Octavio Ianni, Eduardo de Oliveira e Oliveira. A hipótese é de que há uma aproximação de projetos políticos acerca da mudança social pautada pela luta antirracista, que se modificará em função do golpe de Estado civil-militar de 1964.

Palavras-chave: Intelectuais negros; ativismo; luta antirracista; Florestan Fernandes; Associação Cultural do Negro

Referência
SILVA, Mário Augusto Medeiros da. Órbitas sincrônicas: sociólogos e intelectuais negros em São Paulo, anos 1950-1970. Sociologia & Antropologia,  Rio de Janeiro ,  v. 8, n. 1, p. 109-131,  abr.  2018 .  Disponível em <http://dx.doi.org/10.1590/2238-38752017v814>, acessos em janeiro de 2019.



30 maio 2017

Fotografia e sociedade: questões básicas para a discussão sobre o uso de fotografias em trabalhos acadêmicos

Imagine o mundo antes da fotografia. Para reproduzir concretamente uma imagem vista pelos olhos, era necessário realizar uma pintura ou desenho. Joseph Niepce, inventor francês, foi um dos primeiros a realizar experimentos com sucesso, ainda no final do século XVIII. Só em 1826 foi possível a primeira fotografia de fato, ainda com uma qualidade muito baixa e processo de confecção bastante trabalhoso e demorado. (1)

A primeira fotografia, produzida em 1826.
Fonte: http://dcl.umn.edu/ (Domínio público)
Por ser um evento raro na vida da maioria das pessoas da época, muitas só tiveram seu retrato produzido após a morte. É o caso das fotos post mortem, comuns no século XIX. Para nós, hoje, parece assombroso, mas na época era uma forma muito comum de obter uma última lembrança de um ente querido falecido, além de ser um dos raros momentos em que se conseguia reunir toda a família. Eram muito comuns também as fotos post mortem de crianças, devido à alta mortalidade infantil da época. (2)

A fotografia, apesar de inicialmente só ser acessível a famílias de grande poder aquisitivo, pouco a pouco passou a ser elemento cada vez mais importante para a história e as memórias pessoais, coletivas e institucionais, proporcionando uma forma de registrar acontecimentos e produzir patrimônio cultural para a humanidade.

Os filmes coloridos passaram a ser utilizados em larga escala a partir dos anos 1970, até o lançamento do método digital. Foi um salto muito significativo para a fotografia, pois modificou três questões importantes: (a) não há mais a dependência da quantidade de “poses” de um filme; (b) poder imprimir as fotos e não ser necessário o processo revelação, o que torna mais barata e rápida a materialização da fotografia. Além disso, (c) com a fotografia digital é possível ver a foto antes de imprimir, podendo mantê-la ou excluí-la.

Atualmente, após 180 anos do início da fotografia, a maior parte das pessoas dos centros urbanos do mundo possuem um aparelho smartphone com câmera digital, permitindo produzir inúmeras fotografias e publicá-las em seguida. À propósito, o processo de publicação e compartilhamento em redes sociais já tem substituído a impressão das fotos digitais. Está ficando cada vez mais raro que tenhamos as fotos em papel.

15 novembro 2013

FRASER, Nancy. Da redistribuição ao reconhecimento. Dilemas da justiça na era pós-socialista.

Nancy Fraser, nascida nos Estados Unidos em 1947, é uma importante pensadora sobre as concepções de justiça social. A apresentação a seguir trata de um texto da autora publicado em 2001 em um livro organizado pelo sociólogo Jessé Souza. O texto trata das dimensões socioeconômica e cultural da injustiça, buscando alternativas para o dilema redistribuição-reconhecimento.



O texto foi apresentado na disciplina de Sociologia das Políticas Educacionais: fundamentos teóricos da ação pública, junto ao PPGEdu da UFRGS em 14 de novembro de 2013.


07 junho 2013

A Sociologia no Pré-Vestibular: o caso da ONGEP

Trabalho meu e do colega Fellipe Madeira, apresentado no III ENESEB - Encontro Nacional sobre o Ensino de Sociologia na Educação Básica, em Fortaleza-CE em maio de 2013.



14 abril 2013

Linha do tempo - Sociólogos clássicos


Por questões curriculares, tive que trabalhar com meus alunos as contribuições de autores clássicos para a Sociologia. Estudando para o assunto, pensei em organizar uma "linha do tempo" de pensadores da Sociologia, procurando localizá-los visualmente quanto à época e país de atividade. 

*Este gráfico teve diversas atualizações ao longo dos últimos anos, verifique ao final qual versão está disponível no momento.*

A linha do tempo é um recurso didático que demanda escolhas, por isso, ela nunca será "completa". O critério para composição da lista foi de autores citados em planos de ensino de disciplinas do curso de Ciências Sociais, porém, ainda assim, há muitas lacunas e autores/as que ficaram de fora. É notória a ausência de mulheres, a respeito da discussão sobre as mulheres nos marcos de memória da fundação da Sociologia, veja este artigo: A mãe fundadora negligenciada - sociologia e androcentrismo

Veja também: Órbitas sincrônicas: sociólogos e intelectuais negros em São Paulo, anos 1950-1970

Quando se estuda Sociologia fora do curso de Ciências Sociais, é comum serem apresentados apenas autores clássicos (geralmente Marx, Durkheim e Weber). No entanto, a Sociologia se desenvolveu e se diversificou muito no século XX, processo que segue atualmente com autores de diversas partes do mundo, ainda com o desenvolvimento e maior visibilidade de linhas de pensamento criadas a partir de países fora do centro europeu e norte-americano de produção intelectual.

Você também pode visualizar a linha do tempo em planilha compartilhada: 
https://docs.google.com/spreadsheets/d/1AnLhPy3R1TN691jiUaYd0mKs9r_qXEg8aqwV7eoRCfA/edit?usp=sharing


Clique na imagem para ampliar


(1) nascido na Alemanha, mas morou também na França e na Inglaterra
(2) nascido na França e radicado na Itália
(3) nascido na Hungria e radicado na Alemanha
(4) nascido no Canadá e radicado nos EUA
(5) nascido na Áustria e radicado nos EUA
(6) nascido na Tunísia e radicado na França

Transcrição da lista de autores:

Augusto Comte (1798 - 1857)
Harriet Martineau (1802-1876)
Karl Marx (1818 - 1883)       
Friedrich Engels (1820-1895)
Herbert Spencer (1820 - 1903)       
Vilfredo Pareto (1848 - 1923)               
Émile Durkheim (1858 - 1917)
George Simmel (1858 - 1918)
Max Weber (1864 -1920)
Marcel Mauss (1872 - 1950)   
Walter Benjamin (1892-1940)       
Karl Mannheim (1893 - 1947)           
Max Horkheimer (1895 - 1973)           
Norbert Elias (1897 - 1990)
Roger Bastide (1898-1974)
Gilberto Freyre (1900-1987)
Talcott Parsons (1902-1979)
Theodor Adorno (1903-1969)
Alberto Guerreiro Ramos (1915-1982)
Wright Mills (1916-1962)   
Florestan Fernandes (1920-1995)   
Edgar Morin (1921)       
Erving Goffman (1922-1982)
Darcy Ribeiro (1922-1997)
Zygmunt Bauman (1925-2017)
Michel Foucault (1926-1984)
Jürgen Habermas (1929)
Peter L. Berger (1929-2017)
Pierre Bourdieu (1930 - 2000)
Herbert José de Sousa (1935-1997)
Anthony Giddens (1938)       
José de Souza Martins (1938)   
Domenico De Masi (1938-2023)   
José Murilo de Carvalho (1939-2023)
Boaventura de Sousa Santos (1940)   
Pedro Demo (1941)           
Manuel Castells (1942)           
Bruno Latour (1947-2022)           
Pierre Lévy (1956)

*Última atualização em janeiro de 2024.

Como citar este texto
PEREIRA, Vanessa Souza. Linha do tempo - Sociólogos clássicos. Contornos Educação e Pesquisa, s. l., 2024. Disponível em: <http://www.contornospesquisa.org/2013/04/linha-do-tempo-sociologos.html>. Acesso em: dia/mês/ano.



22 setembro 2012

A emergência de novidades metodológicas no campo virtual: uma análise de estudos no ciberespaço

Enquanto aguardo que o trabalho seja publicado no Lume, disponibilizo aqui o meu trabalho de conclusão de curso em Ciências Sociais, cujo tema são as novidades metodológicas em estudos das Ciências Sociais que têm a internet como campo de pesquisa.

Resumo

A proposta deste trabalho é analisar a emergência de novidades metodológicas na abordagem do campo virtual em uma amostra de estudos das ciências sociais que tiveram os ambientes virtuais como campo de pesquisa. O objetivo é conhecer as estrategias metodológicas desenvolvidas na pesquisa e observar o surgimento de novos conceitos. Para tanto, procurou-se tratar sobre a construção do conhecimento científico e a metodologia de pesquisa no contexto da sociedade da informação, focando as influências da internet na metodologia de pesquisa social. O ciberespaço, como uma dimensão da realidade social, tem sido objeto e campo de um número crescente de pesquisas na área de ciências sociais. Muitos desses estudos, em sua fase empírica, esbarraram nas diferenças que o ambiente virtual apresenta. Na análise, identifica-se essencialmente dois caminhos: os que empregam a mesma metodologia dos ambientes não-virtuais e os que, diante das  peculiaridades do ambiente virtual, adaptam, criam ou recriam os métodos e técnicas de pesquisa. Não só a pesquisa empírica passa por transformações, como a abordagem teórica também sofre com a definição dos termos, uma vez que as transformações nas denominações estão associadas também com a dinâmica da tecnologia material. De forma geral, a análise apresenta que os estudos têm observado diferentes aspectos possíveis da pesquisa na internet, trazendo tanto novidades metodológicas quanto metodologias típicas de espaços não-virtuais. O ciberespaço como campo traz novas questões ao pesquisador social na construção de sua metodologia de pesquisa, como a possibilidade de acesso a dados primários, a presença e o anonimato do observador, além da própria visão do autor sobre o que é o ciberespaço e a internet.

Palavras-chave: metodologia de pesquisa, ciberespaço, internet, pesquisa social em ambientes virtuais.

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21 agosto 2012

O estudo da estratificação social

As teorias de estratificação social consideram que a sociedade é dividida em camadas (ou estratos), as quais são definidas a partir de critérios determinados. Apesar da igualdade de direitos e deveres perante a sociedade, sabemos que o indivíduos possuem condições socioeconômicas distintas, o que influencia o acesso à saúde, educação, tipo de emprego e até mesmo a expectativa de vida. O estudo da divisão da sociedade em classes visa conhecer as diferenças de condições da população, especialmente com vistas à  implementação e avaliação de políticas públicas, além de conhecer a própria situação do país.

Para Marx, o fator econômico era o principal indicador sobre a posição de classe de um indivíduo. Isso significa que a ocupação (emprego) e a posição no mercado (como possuidor ou não de capital financeiro) determinariam a classe. Já para Bourdieu, a condição de classe se daria em função do capital econômico mais o capital cultural do sujeito. Os indicadores variam bastante na visão de cada autor. O que sabemos hoje é que a sociedade, muito mais complexa que na época da Revolução Industrial, demanda a revisão constante das definições de classe e, consequentemente, dos critérios de avaliação das posições dos indivíduos.

O estudo da estratificação social também tem como objetivo conhecer o quanto é possível obter mobilidade social ascendente em uma região ou país (GIDDENS, 2005). A mobilidade social significa o deslocamento do sujeito na posição socieconômica de classe. Esse movimento, contudo, pode ser tanto ascendente (ficando mais rico) quanto descendente (ficando mais pobre). O número de pessoas que "sobem" ou "descem" na posição de classe é um importante indicador sobre a economia de uma nação, podendo ter diversas causas.

Marx acreditava que a a classe trabalhadora (empregados de funções operacionais/manuais/indústria) cresceria e se uniria como classe a fim de lutar pelo estabelecimento de uma nova ordem social. O que aconteceu, porém, foi que a classe trabalhadora diminuiu e grande parte dos que "mudaram de vida" modificaram seus hábitos e gostos, além de adotar valores mais comuns da classe média tradicional.

Com a complexificação das atividades e das diversas formas de trabalho na atualidade, é cada vez mais difícil delimitar o que seria a classe média. Além disso, sabemos muito mais sobre os pobres do que sobre os ricos, uma vez que facilmente obtemos dados e conseguimos nos aproximar de populações mais carentes, enquanto as altas camadas dificilmente declaram dados sobre suas posses e estilo de vida.

Referência
GIDDENS, Anthony. Classe, Estratificação e Desigualdade. In: ________. Sociologia. Porto Alegre: Artmed, 2005.