Contornos - Educação e Pesquisa: Surveys, questionários. Como construir? Sugestões e indicações

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Surveys, questionários. Como construir? Sugestões e indicações


O questionário, também conhecido como survey, é um dos instrumentos de geração de dados mais conhecido e utilizado em científicas nas mais diversas áreas. De abordagem mais quantitativa, destaca-se a rapidez no preenchimento das respostas e largo alcance, podendo produzir dados referentes a populações muito grandes. Também por essas razões, no entanto, devem ser contruídos com muito cuidado, observando todos os detalhes.

Apesar de simples, a construção de um questionário envolve um trabalho árduo e reflexivo. Tal construção deve estar diretamente articulada com o problema de pesquisa e a(s) hipótese(s), para que o pesquisador não perca o foco e elabore questões efetivamente pertinentes ao seu estudo.

Por essas e outras razões, pensei em elaborar este apanhado de indicações para a construção e aplicação de questionários, através de conhecimentos que fui obtendo na teoria e na prática. O objetivo é compartilhar com vocês um pouco do que aprendi (e estou aprendendo), pensando que quanto mais gente tiver conhecimento disso, melhor pra todos nós. ;)

Então, vamos lá:


Logo no início, apresente-se, explicite o objetivo da sua pesquisa, diga o quanto a participação do respondente é importante para o seu trabalho. Deixe um contato de telefone ou email, avise que a pesquisa publicada pode ser enviada ao respondente depois, se ele quiser. Essas atitudes dão maior confiança a quem  vai responder, especialmente se as questões se tratarem de um assunto delicado.

Cuidado com o excesso de informação. É comum, principalmente nos primeiros trabalhos, que o pesquisador se anime muito com a possibilidade de atingir muitas pessoas e obter uma grande quantidade de dados interessantes com o. Cuidado! Não pergunte o que não for diretamente relacionado ao seu problema, uma vez que se corre o risco de exaurir o respondente com um questionário muito longo e/ou depois sofrer a para tabular e analisar uma quantidade de dados tão grande.

Procure forular as questões de maneira clara e precisa. Como os questionários são geralmente autoadministrados, o pesquisador deve dizer exatamente o que precisa saber em cada pergunta, para realmente conseguir respostas de acordo com seus objetivos. Não conte com o óbvio. Como o professor de Pesquisa Quantitativa Maurício Moya disse-nos em uma aula: “se você contar com o óbvio, óbvio que se dará mal”. ;)

Conheça o público-alvo. Certifique-se de que o vocabulário e a construção frasal das questões são diretos e entendíveis para o público. Você pode utilizar um breve texto explicativo, se necessário. Evite termos técnicos ou conceitos que possam ser desconhecidos para essas pessoas.

Separe as questões em blocos temáticos. Facilita para o respondente mobilizar-se nas repostas, articulá-las e estruturar o pensamento.

Evite ambiguidades, negações e termos tendenciosos nas perguntas. Por exemplo: “Você considera absurdo o crime de corrupção?” ou “Você não utiliza mensagens no seu celular porque você não sabe que são mais baratas?”.

No caso de questões fechadas, as respostas devem contemplar todas as possibilidades e que sejam excludentes entre si. Quebre a cabeça para formular alternativas que satisfaçam o respondente e que interessem a você, cuidando para que as opções não sejam repetitivas. Quando não encontrar mais alternativas ou as alternativas não se associarem ao seu trabalho, inclua a opção “outros” e “não sei”.

Questões de múltipla escolha são difíceis de tabular e analisar. Como provavelmente muitas pessoas vão escolher diversas alternativas (no caso de você indicar essa opção, é claro), a soma das variáveis resultará em uma porcentagem maior que 100%, dificultando a análise. Uma dica: construa as questões com “colunas de preferência”, por exemplo:

Qual seu hobby?
(marque uma alternativa por coluna)

1º hobby preferido
2º hobby preferido
3º hobby preferido
x
x
x
y
y
y
z
z
z

Cada questão deve abarcar uma variável de cada vez. Este é um detalhe muito importante e um erro recorrente. Às vezes, na tentativa de diminuir o questionário ou associar ideias, o e acabar misturando variáveis e gerando confusão nas respostas. Lembre-se que quem constrói e quem aplica o questionário são tão responsáveis pelas respostas quanto o respondente em si e que uma mesma pergunta pode ser feita de diversas formas, podendo gerar respostas diferentes e até mesmo opostas!

Exemplo: “Você pensa que o governo Dilma deveria diminuir os gastos com a estrutura militar e gastar mais em educação?”

Nesta questão há dois problemas. Primeiro motiva o respondente a afirmar que a educação precisa de mais recursos que a  estrutura militar. Mesmo que seja,  o pesquisador quer saber a opnião da pessoa, portanto, deve construir a frase sem adjetivos ou advérbios, para que a resposta seja o mais espontânea possível. Segundo, quem responder somente “sim” ou “não” poderá estar se referindo só à diminuição de gastos com a estrutura militar ou somente à educação. Na hora de analisar esses dados, como o pesquisador vai saber do que se trata? Essa questão poderia ser desdobrada em outras duas e complementada com uma terceira:

“Você acredita que os gastos do governo Dilma com a estrutura militar são:”

(  ) mais que suficientes
(  ) suficientes
(  ) insuficientes
(  ) muito insuficientes
(  ) não sei

“Você acredita que os gastos do governo Dilma com a educação são:”

(  ) mais que suficientes
(  ) suficientes
(  ) insuficientes
(  ) muito insuficientes
(  ) não sei

“Entre estas duas opções, qual você acredita que deva ser prioridade nos gastos do governo Dilma?”

(  ) estrutura militar
(  ) educação

Outra dica importante é, como no caso desse exemplo, alternar a ordem das questões, fazendo para algumas pessoas as perguntas na ordem inversa, falando primeiro sobre educação e depois sobre estrutura militar, para comparar também se há regularidade nas respostas segundo a ordem das questões.

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