Contornos - Educação e Pesquisa: Plágio em trabalhos e relatórios: é preciso entender o que é pesquisa

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Plágio em trabalhos e relatórios: é preciso entender o que é pesquisa

Nos últimos anos tive a oportunidade de acompanhar vários alunos em processo de pesquisa e percebi que muitos não têm plena consciência de que o que estão fazendo é plágio. É fato que não se pode alegar simples desconhecimento, porém esse equívoco geralmente decorre da falta de preparo sobre o que é o processo de pesquisa. Infelizmente no Brasil não é comum que tenhamos a pesquisa como princípio educativo na educação básica. A maior parte das pessoas vai ter acesso ao que é uma pesquisa só na universidade (o que também foi o meu caso e contribuiu para muitos tropeços). Há iniciativas nesse sentido, inclusive de redes públicas de ensino, porém há um longo caminho de investimento.

Assim, o que temos atualmente é uma grande quantidade de pessoas acostumadas com o sistema de transcrição de trechos de enciclopédias ou revistas para a realização de trabalhos escolares e muitas outras que já nasceram na era digital, mas que seguem o mesmo princípio de transcrição, só que sem nem ao menos escrever. Com a facilidade das buscas por textos em ambientes virtuais, a prática de transcrição agora é reduzida ao famoso copiar e colar. Em muitos casos, as pessoas modificam apenas algumas palavras do texto e a partir daí o tratam como um texto “seu”.

Vejo que instituições de ensino muitas vezes enviam alertas sérios sobre o problema do plágio nos trabalhos (hoje facilmente identificáveis com softwares) mas pouco se dedicam a educar sobre o que é plágio. Talvez não seja algo tão bem entendido como se imagina.

Veja a cartilha produzida por uma comissão especializada em avaliação de autoria da UFF (Universidade Federal Fluminense) com explicação e exemplos de plágio. Atenção para os três tipos: integral, parcial e conceitual. Apenas o primeiro tipo se trata de cópia palavra por palavra. 

cartilha plágio
"Print" da primeira página da cartilha (UFF, 2010)
http://www.noticias.uff.br/arquivos/cartilha-sobre-plagio-academico.pdf

Para entender o que é plágio, é preciso entender: o que é pesquisar? Ao refletir sobre o que consiste o ato de pesquisar, o plágio tende a ficar mais evidente e evitável.

Pesquisar é um processo, não se faz na noite do último dia de prazo. Para ter o que escrever, será necessário ler, realmente conhecer o que foi publicado sobre o tema tratado. Aliás, dificilmente haverá um problema de pesquisa bem definido sem leitura, pois a leitura auxilia na percepção de lacunas que se pode examinar com a pesquisa.


Sei que para muitos estudantes a sessão da fundamentação teórica é muito difícil de redigir, mas não se trata de uma sessão obrigatória no trabalho por acaso, é uma etapa essencial da pesquisa. Escrever sem leituras anteriores é realmente dificílimo. É necessário estudar o tema, iniciando por conhecer de forma ampla e então optar por questões a se aprofundar, até sentir que não há pontas soltas na explicação do problema. É preciso ler e sentir que dificilmente haverá como alguém (os leitores, a banca, a comunidade, você) ter a dúvida “de onde saiu isso?”, tanto conceitualmente (na formulação da ideia), quanto na indicação das fontes, pois estará claro no texto. 

Estudar é um processo de ler/pensar/anotar, que pode ser organizado com fichas de leitura (ou fichamentos). Seria muito difícil trabalhar sem os fichamentos. Simplesmente porque a mente não guarda tudo, é preciso anotar, esquematizar, voltar à anotações. Nos fichamentos também há transcrições, que mais tarde se tornarão citações diretas (ou não), porém estão muito bem sinalizados os trechos que forem anotações minhas e onde são citações dos autores estudados. Pode parecer “gasto” de tempo, mas, acredite, não é. Isso porque após a leitura e o fichamento você estará preparado para escrever muito. Na realidade, o processo de escrita do trabalho pode acontecer até durante o fichamento, pois da concentração e do aprofundamento surgem relações importantes para o desenvolvimento do trabalho.

Abaixo um registro de alguns fichamentos meus para a escrita da dissertação de mestrado. Isso não representa nem 1/10 do que precisei ler/anotar/esquematizar, fora as leituras das disciplinas. Gosto de escrever no papel, mas provavelmente é mais ágil (e fácil de buscar) as anotações em documentos virtuais. 

Exemplos de anotações/fichas de leitura

Enfim, apesar dos esforços de avisos e alertas contra o plágio, acredito que para diminuir/acabar com essa prática, seria interessante buscar ensinar mais sobre os processos de leitura, estudo e pesquisa, preferencialmente desde o ensino básico. Na contramão das práticas imediatistas, é preciso ficar claro que se trata de um processo trabalhoso, que demanda tempo, mas que é muito recompensador em termos de descobertas e aprendizados, além do enriquecimento social trazido pelo conhecimento produzido para a coletividade. ;)

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