Contornos - Educação e Pesquisa

25 fevereiro 2012

Elaboração do projeto de pesquisa: a definição do objeto

O primeiro capítulo de Triviños (2001) dedica-se à tarefa de elaboração de um projeto de pesquisa. O que um pesquisador precisa pensar para desenvolver o seu projeto? O autor defende que essa elaboração seria constituída das seguintes etapas:

a) definição do objeto de estudo;
b) opção pelos aspectos metodológicos ou abordagem metodológica do estudo;
c) cronograma de execução;
d) anexos;
e) referências.

Neste primeiro momento, vamos desenvolver um pouco sobre a primeira etapa: a definição do objeto.


A definição do objeto (ou problema de pesquisa) é a etapa na qual o pesquisador irá decidir delimitar o que deseja estudar. Para começar, é essencial que realize uma pesquisa bibliográfica sobre o tema, fazendo uma seleção de materiais em bibliotecas, acervos online e outras fontes (veja mais sobre fontes de referência).

É importante conhecer outros estudos sobre a temática e observar as bases teóricas nas quais estão sustentadas as ideias de cada autor. Assim é bem provável que o pesquisador visualize o potencial de outros ângulos do problema ou a possibilidade de uma nova proposta de abordagem teórico-metodológica para a questão de interesse. Nesse momento, é possível que a primeira ideia de problema tenha sido consideravelmente modificada, pois o autor tende a obter novas propostas de estudo a medida em que aprofunda o seu conhecimento na questão. Entretanto, em um dado momento, é preciso ter o cuidado de delimitar a questão e seguir com o foco nela. 

Nessa etapa, uma aproximação empírica é bastante indicada. A pesquisa exploratória deve constar no projeto, podendo ser apresentada como um ensaio da aproximação que se realizará posteriormente (o trabalho de campo). O trabalho de campo exploratório também auxilia no desenvolvimento de questões, objetivos e abordagens complementares à pesquisa bibliográfica.

Sobre as questões teóricas, Triviños assume que as teorias que escolhemos para sustentar ou refutar uma hipótese ou argumento estão unidas à nossa maneira de apreciar o mundo. Temos concepções gerais da realidade, nossas maneiras de pensar sobre o mundo. Tudo isso está ligado aos argumentos que vamos aceitar como verdadeiros e utilizar na nossa definição e argumentação sobre dado tema. 

Dessa forma, no texto científico, buscamos definir pormenorizadamente cada conceito de uma teoria, com os entendemos e como cabem na problemática. No estudo das referências da temática de interesse, possivelmente o pesquisador encontrará tendências teóricas gerais (positivismo, marxismo, estruturalismo, pós-estruturalismo, estrutural-funcionalismo, etnometodologia...) e teorias específicas (construtivismo genético de Piaget, teoria do discurso de Foulcault, materialismo histórico de Marx etc) as quais irão inspirar o autor na abordagem do problema de pesquisa. 

Além disso, as escolhas teóricas também podem orientar os aspectos metodológicos, pois teoria e método estão ligados no sentido que o paradigma determinará a matiz dos resultados. Dito de outra forma, as teorias "pedem" determinados enfoques práticos do problema. Mas, a partir daqui, estamos falando do que Triviños considera como a segunda etapa da elaboração do projeto, a  abordagem metodológica do estudo, que desenvolveremos mais adiante. :)

Referência:

TRIVIÑOS, Augusto Nibaldo Silva. Cadernos de Pesquisa Ritter dos Reis - vol. IV. Bases Teórico-Metodológicas da Pesquisa Qualitativa em Ciências Sociais. 2ª ed. Porto Alegre: Ritter dos Reis, 2001.

13 fevereiro 2012

A construção dos procedimentos metodológicos em projetos de pesquisa


Os procedimentos metodológicos constituem a fase final de apresentação de um projeto de pesquisa. Após ter esclarecido as facetas do problema, sua fundamentação teórica (em que argumentos irá se sustentar/visões que irá refutar) e revisão bibliográfica (o que outros autores já escreveram sobre o assunto), é hora de demonstrar como o problema será abordado empiricamente. Para tanto, é preciso apresentar como isso será feito na seção dos procedimentos metodológicos.

Para construir a apresentação dos seus procedimentos, pense sobre os seguintes elementos e tente responder às perguntas seguintes:

1. Métodos de investigação: como será estruturado o trabalho? Qual o foco empírico? Ex.: estudo de caso, survey, pesquisação etc.

2. Fontes e acesso aos dados: quem se irá entrevistar/questionar? De que forma? Com qual instrumento? Se os dados são secundários, de onde vêm? Se as fontes forem pessoas, como serão contatadas e abordadas? 
3. Características da amostra: como será feito o delineamento da amostra? Ex.: aleatória, estratificada, por cotas etc. Qual é o público-alvo? [Veja: Exemplos de modelos de amostragem]
4. Coleta/produção de dados: a partir de que técnica se obterão os dados? Ex.: observação, entrevista, questionário, história de vida, pesquisa documental etc. Como será sistematizado o trabalho de campo? No trabalho de campo, as falas serão anotadas/gravadas, filmadas? Como os dados serão organizados? Será utilizado algum software de apoio?
5. Análise dos dados: como os dados serão analisados? Que técnica/perspectiva será utilizada para análise? Por quê? Será utilizado algum software específico para este trabalho? Ex.: NVivo, Atlas.ti, MaxQDA, MSExcel, SPSS etc).
6. Instrumentos de coleta de dados: o que será utilizado para produzir os dados? A entrevista ou o questionário será mais ou menos estruturado? Como o instrumento será distribuído e aplicado?

Descrever claramente como a pesquisa empírica será realizada o auxilia a obter um melhor "controle" sobre o trabalho e demonstra conhecimento sobre o processo de pesquisa, além de reconhecer a responsabilidade do pesquisador para com os dados e sua manipulação.

Fonte: anotações produzidas em aulas da disciplina Projeto de TCC em Sociologia, ministrada pela profª. Cinara Rosenfield em 2011/2 para o curso de Ciências Sociais da UFRGS.

Veja também: 
A construção da metodologia na pesquisa social
Elaboração do projeto de pesquisa: a definição do objeto

20 janeiro 2012

O que é SOPA e porque é importante entender

SOPA (Stop Online Piracy Act) é um projeto de lei apresentado à Câmara dos Deputados dos Estados Unidos em outubro de 2011 como um complemento do Protect IP Act (PIPA), apresentado em junho do mesmo ano.

Trata-se de uma medida que propõe o bloqueio de acesso a sites considerados como violadores da propriedade intelectual, o que significa que qualquer site que for acusado de "roubar"  imagem, vídeo, música, texto ou software de "propriedade" de algum cidadão ou empresa estadunidense (protegido pela lei de copyright) será bloqueado e  terá todas as referências em buscadores e outros sites imediatamente apagadas.

A justificativa é combater a pirataria online, o problema é que, com a SOPA, os sites primeiro seriam condenados e bloqueados (em até 5 dias após as acusações) e só depois poderiam entrar com a defesa, dando margem para injustiças que causariam enormes prejuízos, além de inverter um preceito básico do Direito, no qual o acusado só é condenado após um julgamento, onde se apresentam as provas do "roubo" e o acusado tem a chance de se defender.

Apesar de serem projetos de lei dos Estados Unidos, afetam diretamente o modo como navegamos e utilizamos a internet aqui no Brasil e em todo o mundo, uma vez que os principais buscadores, provedores de conteúdo e redes sociais estão sediados nos EUA.

Na última quarta-feira, 18 de janeiro, pelo menos 10 mil sites só nos EUA, entre eles a Wikipedia, protestaram contra os projetos.

Se você preza pelo modo como atualmente utilizamos a internet, como ferramenta de compartilhamento e busca de informação e cultura, é importante discutir sobre o assunto. Vale também lembrar que este site possui a  licença Creative Commons, que permite o livre acesso e distribuição dos conteúdos publicados, desde que mencione a referência. :)

Alguns artigos sobre o assunto:

SOPA é o mesmo que vetar palavrões no dicionário, diz especialista
O que é o SOPA (Stop Online Piracy Act) e porque ele é tão perigoso


09 dezembro 2011

Como construí meu problema de pesquisa de TCC

Estou pensando nessa postagem há muito tempo, mas não é fácil começar. Há mais ou menos 6 meses, comecei a pensar a sério no TCC. Até dizer "esse tema vale a pena"... tem que ter pensado (e de preferência lido) bastante. Eu pensei muito mais do que li, mas, mesmo assim, acho que encontrei.

A primeira coisa que eu pensei foi como a pesquisa seria "operacionalmente", ou seja, qual seriam os procedimentos metodológicos que eu utilizaria. Eu gosto muito de trabalhar com dados em tabelas, interpretar números, fazer gráficos... Aí, indo adiante, pensei que tipo de problema eu poderia investigar com esse tipo de ferramenta. 

E qual é o problema? Bom, eu observei um fenômeno: vi que alguns pesquisadores estavam tendo dificuldades em pensar sobre a metodologia da sua pesquisa cujo campo seria em alguma rede social na internet. Mais concretamente: se um monografando da Comunicação, por exemplo, quer pesquisar sobre as representações sociais do grupo tal no Facebook, como ele faria para coletar, organizar e analisar os dados desse estudo? (supondo que não seja uma pesquisa bibliográfica pura) 

Essa dificuldade que observei era relacionada ao referencial para essas técnicas. Será que as metodologias de pesquisa social na internet são as mesmas do "mundo real"? (=parte do problema) Provavelmente não, porque as características dessas duas dimensões são diferentes. (=parte da hipótese) Mas, como nominar essas duas "dimensões"? (=parte da fundamentação teórica + conceitos) 

Então, eu quero verificar empiricamente quais são as metodologias que os pesquisadores das Ciências Sociais e da Comunicação estão utilizando pra estudar um objeto na internet. Só daí já saem várias questões. O que eu considero como metodologia? (fundamentação teórica) Quem são esses pesquisadores? De que nível? (universo empírico - quantos/quais elementos) Eu vou ter que escolher um objeto único para esse universo de pesquisadores e pesquisa, pois eu não posso abordar todos os tipos de objetos - seria uma discussão imensa para um TCC. Então eu escolhi "interação em redes sociais" - que é um dos temas que mais me interessam na Sociologia.

Nesse ponto, eu tinha parte do problema, do objeto do problema e até uma hipótese. Foi então que comecei a ler algumas pesquisas em redes sociais e notei que grande parte delas problematizava e levantava questões - longe de ter uma resposta - sobre como fazer pesquisa em ambientes virtuais. Outra grande parcela questionava até a nomenclatura para designar essa face da realidade: ciberespaço, espaço virtual, web, web 2.0...? Eu também quero fazer essa discussão, trazendo vários outros autores e o que eu observar na minha pesquisa empírica.

O recorte da pesquisa empírica que eu penso ser o melhor para abordar isso, no momento, são teses e dissertações de universidades brasileiras (recorte na origem dos dados) defendidas de 2005 a 2010 (recorte no tempo) disponíveis no Banco de Teses da CAPES (fonte dos dados). No entanto, trabalhar com todas as teses e dissertações seria algo impraticável. Então eu recortei mais a amostra, delimitando nas áreas de Ciências Sociais e Ciências da Comunicação e, dentro destas, só os trabalhos dos programas de pós-graduação melhor avaliados pela CAPES (ou seja, com nota 5 ou mais na avaliação da época).

O que eu fiz, por enquanto, além de um pouco da fundamentação teórica, foi uma pesquisa exploratória, para ver se o meu problema e a minha abordagem empírica sobre ele faziam sentido na prática. Felizmente deu certo, mas já foi muita informação, deixo pra explicar em outro dia. :)