Contornos - Educação e Pesquisa

07 fevereiro 2026

Estudos de crioulo haitiano para professores: 7 dicas

Com o que temos visto nos últimos anos com relação à produção de conteúdo na internet, que migra cada vez mais para redes sociais, e também com relação aos conteúdos gerados por IA, fico me perguntando o quanto vale a pena continuar escrevendo. No entanto, talvez ainda exista um ou outro que tenha saudade de sites e blogs e queira ler algo que não se perca em uma timeline infinita. Pensei, então, em trazer algumas reflexões e estudos que tenho feito como professora, para compilar e refletir sobre o que tenho desenvolvido na vida docente e aprendido com os colegas, estudantes e escolas por onde passo.
 
Sinto que a cada ano de docência vamos aprimorando algum aspecto, no último ano, estive interessada em estudar sobre como melhorar a minha prática com estudantes imigrantes. Desde que comecei a ser professora na educação básica, sempre tive estudantes estrangeiros em alguma medida, como deve acontecer com boa parte dos colegas. Com relação aos estudantes haitianos, sentia muita impotência por não conseguirmos nos entender. Na escola em que eu atuava até o ano passado, havia uma quantidade enorme de estudantes imigrantes e especialmente de estudantes haitianos já formados em seu país, mas que eram matriculados no 3º ano do Ensino Médio para concluir seus estudos (novamente) no Brasil, um caminho mais em conta do que a revalidação do diploma*.
 
Inicialmente, tentei inserir algumas frases em francês ou traduzir avaliações para esse idioma, pois, na educação básica formal haitiana, o idioma utilizado é o francês. No entanto, apesar de compreenderem o francês, os estudantes haitianos utilizam em sua comunicação com familiares e amigos o crioulo haitiano (Kreyol). Assim, pareceu fazer mais sentido a comunicação com eles em crioulo. Como não sou fluente em francês, pensei em aproveitar a oportunidade para estudar algumas frases de crioulo. Entretanto, aprender um novo idioma implica também estudar sobre história e cultura local para que as peças se encaixem. Assim, fui explorando referências e desenvolvendo o idioma junto com meus estudantes, o que nos aproximou muito. A surpresa e o sorriso deles ao serem recebidos com um “Bonswa, ki jan ou ye?” é sensacional.
 
Assim, o objetivo deste texto é apresentar algumas referências para leitura e estudo da história, cultura e idioma para professores que possuem estudantes que vêm do Haiti. Cabe destacar que esse aprendizado é a título de acolhimento do estudante imigrante, não significa que nós professores temos que falar com eles a todo momento em crioulo, mas que busquemos conhecer o contexto de onde esses estudantes vieram e demonstrar que estamos abertos, enquanto o próprio estudante também se responsabiliza pelo seu processo e busca aprender o português.

1 - Ann Pale Potigè: Apostila Crioulo Haitiano – Português

A cartilha produzida por Pastoral da Mobilidade Humana da Diocese do Alto Solimões, Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil e Instituto de Migrações e Direitos Humanos contém uma série de expressões e frases comuns para o contato cotidiano entre falantes de português e crioulo haitiano.
 


Por exemplo:
  • Bonjou = Bom dia
  • Bonswa = Boa tarde/Boa noite
  • Kòman ou ye ? = Como vai ?
  • Èske ou anfòm ? = Tudo bom?
  • Mwen byen = Estou bem.
  • Kòman ou rele ? = Como é seu nome ?
  • Mwen rele…. = Meu nome é…
  • Ki lang ou pale ? = Você fala quais línguas ?
  • Mwen pale kreyòl, franse, panyòl ak anglè. = Eu falo crioulo, francês, espanhol e inglês.
  • Ki laj ou ? = Quantos anos você tem ?
  • Wi = Sim
  • Non = Não
  • Silvouplè = Por favor
  • Mèsi = Obrigado
  • Anpil = Muito 
2 - Duolingo

Se você tem algum conhecimento em inglês, o Duolingo possui o curso de crioulo haitiano a partir do inglês. Mesmo que você não seja fluente em inglês, é possível aprender as primeiras palavras no idioma haitiano e suas pronúncias.

3 - Podcast Koze Mande Chez
 


O Koze Mande Chez é um podcast de professores de crioulo haitiano, sendo três brasileiros (Renata, Camila e Bruno) e um haitiano (Francky). O podcast tem mais de 20 episódios com muito conteúdo interessante para quem convive com pessoas haitianas no Brasil. Recomendo começar pelo episódio 1, mas o meu episódio preferido é o #19.
4 - Fronteiras Invisíveis do Futebol #86 – Haiti

O podcast Fronteiras Invisíveis do Futebol é dos mesmos criadores do podcast Xadrez Verbal, e, apesar do nome, não trata apenas de futebol. Esse episódio faz um histórico detalhado da nação haitiana e de sua luta por independência e liberdade. Cabe lembrar que o Haiti foi a única nação das Américas que aliou o processo de independência com o fim da escravidão no território.

5 - Blog Aprenda Crioulo Haitiano - prof. Bruno

O professor Bruno Pinto Silva é uma grande referência nos estudos de crioulo haitiano para falantes de português. Além de sua participação no podcast Koze Mande Chez, ele produziu diversos materiais e cursos que estão disponíveis em seu blog e canal do you tube. Ele também ministrou cursos de crioulo haitiano como curso de extensão na USP, que está totalmente disponível no You Tube.
 
6 - “Ayisyen kite lakay”: uma introdução à música da diáspora haitiana no Brasil

O artigo de Caetano Maschio Santos analisa a produção e os fazeres musicais de haitianos no Brasil, sob um olhar antropológico e etnomusicológico. O autor possui várias produções sobre música haitiana no Brasil, sua dissertação de mestrado foi uma das primeiras referências que li, na qual ele estuda a produção musical e as trajetórias de músicos da diáspora haitiana no Rio Grande do Sul. A dissertação possui um capítulo sobre o contexto histórico da imigração haitiana para o Brasil e acompanha a trajetória de músicos haitianos imigrantes em Porto Alegre.7 - Literatura haitiana

Outra forma de conhecer mais sobre a cultura e o modo de vida no Haiti, é conhecendo a literatura haitiana. O primeiro livro que li foi “País sem chapéu” de Dany LaFerriere, sugerido por um amigo professor. O mesmo autor possui diversas outras obras, inclusive infantis como o título “Mwen damou pou Vava”.

Outro livro que li, desta vez de uma autora haitiana e que retrata a perspectiva de duas mulheres vivendo no Haiti foi “A cor do amanhecer”, de Yanick Lahens. Esta obra está entre uma das mais importantes que já li.

Outras indicações de literatura haitiana - 5 romances para entender o Haiti - Nexo Jornal | Nexo Políticas Públicas
 

 
*Sobre essa medida, ver PORTARIA Nº 2083 de 2023/SC - p. 3.

23 janeiro 2025

“Diálogos Contemporâneos das Juventudes”: explorando o componente curricular eletivo e suas possibilidades de aprofundamento de conceitos sociológicos

Este texto visa expor um trabalho apresentado no VII Congresso da VI Congresso Nacional da Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais (Abecs)

Trata-se de um relato de experiência sobre uma disciplina chamada “Diálogos Contemporâneos das Juventudes”, que ministrei de 2022 a 2024, na implementação do “Novo Ensino Médio” na rede estadual de Santa Catarina. Em 2024 houve uma nova reforma, que excluiu a disciplina do currículo, por isso me refiro a ela sempre no passado. Apesar de ser pessoalmente favorável ao retorno da carga-horária para a formação geral básica, foram anos de preparações e desenvolvimento de atividades com esse foco, as quais acredito que podem ser replicadas em outros componentes de Ciências Humanas, para além da Sociologia, e também como projetos interdisciplinares.

O componente “Diálogos Contemporâneos das Juventudes”

O componente curricular fez parte de um conjunto de 52 componentes curriculares eletivos, que foram criados a partir de pesquisas com jovens e comunidades em 120 escolas-piloto. A ideia era de que os estudantes tivessem a oportunidade de votar nas disciplinas que desejassem cursar e as mais votadas seriam oferecidas semestralmente. O foco principal prescrito para esse componente curricular foi estimular a pesquisa e a discussão sobre os desafios e características dos diferentes grupos juvenis, ajudando os alunos a refletirem criticamente sobre os estereótipos sociais que os cercam.

O desenvolvimento da disciplina por mim na escola considerou a proposta curricular catarinense e os interesses dos estudantes das turmas. Os conteúdos abordados incluíram objetos de aprendizagem como relações sociais, interdependência, instituições sociais e cultura, sempre com uma conexão com a Sociologia. As aulas foram organizadas em blocos que combinaram teoria e prática, permitindo que os alunos se envolvessem ativamente no processo de aprendizagem, com uma parte expositivo-dialogada e outra parte mais prática.

Entre os temas explorados estão as relações de gênero, a interseção entre juventude e violência e as novas dinâmicas do mercado de trabalho. Além disso, as culturas digitais e as mídias sociais foram discutidas, promovendo uma reflexão sobre a confiabilidade da informação e os riscos do ambiente virtual, como ciberbullying e crimes cibernéticos.

Avaliação e Reflexão

As avaliações foram realizadas por meio de atividades práticas e dinâmicas em sala de aula, culminando em projetos que envolvem a construção de campanhas informativas para estudantes mais jovens. Uma das atividades de destaque foi a análise de dados do Atlas da Violência, que permitiu aos alunos compreenderem a vulnerabilidade da juventude em relação à violência.

Os estudantes também tiveram a oportunidade de entrevistar pessoas de diferentes gerações, comparando suas experiências de juventude e analisando como as interações sociais mudaram ao longo do tempo. Essa abordagem não apenas enriqueceu o aprendizado, mas também incentivou um diálogo intergeracional.

Com a implementação contínua de ajustes e melhorias, essa eletiva se destacou como um espaço privilegiado para o desenvolvimento do interesse dos jovens por temas sociais, buscando sempre a formação de cidadãos críticos e participativos.

 Abaixo os slides da apresentação no evento:



22 setembro 2024

Coletâneas - Diversidade biocultural na escola

Os livros a seguir são coletâneas de reflexões e discussões elaboradas por membros do Laboratório de Ecologia Humana e Etnobotânica (ECOHE/UFSC) para uso de professores do ensino básico. As obras destacam a importância dos saberes e práticas de povos indígenas e comunidades tradicionais e contêm planos de aula e relatos de experiência que buscam incentivar a discussão e vivência da ciência entre crianças e adolescentes.

Ambas estão disponíveis no site: https://www.etnobiologia.org/editora

É uma obra escrita a muitas mãos, fruto de reflexões e discussões que emanam das trajetórias e vivências de pesquisa de integrantes do Laboratório de Ecologia Humana e Etnobotânica (ECOHE/UFSC). Tais reflexões trazem para um primeiro plano a importância dos saberes, conhecimentos, práticas e perspectivas de povos indígenas, povos e comunidades tradicionais e locais. Esperamos que este material de apoio para professores e professoras do Ensino Fundamental contribua também como um incentivo para que a ciência seja discutida e vivenciada de forma profunda com as crianças e os adolescentes, e que possibilite a formação de sujeitos críticos e com potencial transformador
 
O livro tem sua gênese nos trabalhos finais de um curso de formação online sobre o livro original "Diversidade Biocultural na Escola - reflexões e práticas para professoras e professores". A qualidade dos trabalhos finais do curso e a riqueza das trocas de experiência nos encontros síncronos motivaram os organizadores a estruturar um segundo livro com a participação dos cursistas e a construção deste volume teve como desafio fazer a costura entre as trocas e reflexões de educadores e educadoras em contextos distintos. Neste livro cada leitor pode ler os capítulos na ordem desejada. No entanto, a organização está em ordem crescente de ano escolar, começando por um plano aplicável para todos os anos, seguido de planos direcionados para os anos do ensino fundamental e médio. Assim, esperamos que essas atividades e propostas sirvam como inspiração e como um convite para outras atividades serem pensadas e desenvolvidas, ajustadas a cada contexto, mas sempre respeitando a riqueza da diversidade biocultural brasileira.



12 fevereiro 2024

Como começar uma revisão bibliográfica ou sistemática

Sabemos que em uma pesquisa acadêmica é necessário realizar uma revisão de literatura sobre o tema que envolve o objeto de pesquisa. Em um artigo sobre as causas do plágio em trabalhos acadêmicos, tratei sobre a importância da pesquisa na construção de um trabalho, ainda que simples, para que “tenhamos o que dizer” nos trabalhos que apresentamos. (Veja em: Plágio em trabalhos e relatórios: é preciso entender o que é pesquisa). No entanto, o que é e como fazer uma pesquisa bibliográfica? Por onde começar e como buscar as bases teóricas de uma pesquisa? E o que é uma revisão sistemática?

Primeiramente é preciso destacar que o processo de pesquisa não é linear, apesar de poder ser sistematizado. Trata-se de um vai e vem na medida em que se lê, experimenta visões e entra em confronto com ideias diversas. A definição do objeto fica mais amadurecida depois de algumas leituras, sendo que parte dessas serão bases para se aprofundar e outras são descartadas ao longo do caminho.

Severino (2007) distingue 3 fases do amadurecimento de um trabalho: (1) a fase da invenção, da descoberta e da formulação de hipóteses; (2) a pesquisa em si, podendo ser experimental, de campo e/ou bibliográfica e (3) a formulação amadurecida com o levantamento de fontes e documentos. Assim, há um percurso de exploração, leitura e amadurecimento da proposta e das percepções do pesquisador-autor, para daí se produzir um trabalho acadêmico.

As pesquisas acadêmicas são também pesquisas bibliográficas, pois sempre retomam as bases do tema a ser tratado. Algumas são apenas bibliográficas e outras e realizam também a pesquisa empírica, com dados construídos em trabalho de campo. De acordo com Severino (2007)

A pesquisa bibliográfica é aquela que se realiza a partir do registro disponível de pesquisas anteriores em documentos impressos como livros, artigos, teses etc. Utiliza-se de dados ou de categorias teóricas já trabalhadas por outros pesquisadores e devidamente registrados. Os textos tornam-se fontes dos temas a serem pesquisados. O pesquisador trabalha a partir das contribuições dos autores dos estudos analíticos constantes nos textos (p.122).

A escolha sobre as fontes da pesquisa bibliográfica vai depender de um conhecimento básico sobre o tema e seus fundamentos, de autores clássicos até os mais atuais. Muitas vezes o/a professor/a orientador/a traz algumas sugestões, mas cabe ao estudante também buscar as bases do tema (se já não o conhecer) em planos de ensino das disciplinas relacionadas e referências de trabalhos estudados. O nível de aprofundamento depende do tipo de pesquisa que está sendo realizada (artigo, TCC, dissertação ou tese).

Já em uma pesquisa bibliográfica sistemática, revisão sistemática ou metapesquisa utiliza de palavras-chave e busca de trabalhos em bases de dados, com recortes e filtros como período de publicação, área de estudos, entre outros. Pode haver diferenças procedimentais em cada uma das nomenclaturas e abordagens conforme os autores, mas basicamente apresentam o uso de palavras-chave para busca em bancos de dados e critérios de exigibilidade , ou seja, o que seja incluído ou não na lista de estudos a serem lidos. Essa busca pode ser realizada tanto em bibliotecas quanto em bases de dados digitais (ver exemplos mais adiante).

A leitura dos estudos de revisão sistemática é guiada por perguntas pré definidas que são feitas para cada estudo, conforme o problema de pesquisa. Por exemplo, em um artigo que foi publicado em 2015, realizei uma pesquisa sistemática sobre o que outros estudos dizem sobre a formação de professores para a gestão democrática na escola. Com as leituras, foram formadas categorias a partir dos achados, que depois foram sistematizadas em anotações e arquivos.

No exemplo, realizamos um levantamento junto ao Banco de Teses e Dissertações Capes das produções referentes aos anos de 2011 e 2012. Observamos que, nesse período, foram defendidas 25 dissertações e 4 teses com os termos gestão democrática da educação, gestão escolar democrática e gestão democrática na escola. A intenção era verificar, inicialmente, através dos resumos, os temas e objetos investigados nas pesquisas, além de seus resultados, buscando compreender as tendências na efetivação da gestão democrática na escola. 
 
Apenas com a leitura dos resumos dessa amostra foi possível perceber que nenhum dos trabalhos abordava a relação entre formação inicial de professores e gestão escolar democrática, o que nos trouxe um dado importante para mais questões de pesquisa e aprofundamento. No trabalho completo é possível ver como trabalhamos com a revisão sistemática para entender os caminhos das pesquisas sobre gestão democrática na escola: A gestão escolar democrática na formação inicial do professor: elementos teóricos para pensar a formação política do professor da educação básica

Algumas bases de dados digitais de material bibliográfico mais comuns no Brasil:
  • SciELO - Brasil - É um portal que reúne acesso aos principais periódicos científicos do país, organizados por temas e áreas de conhecimento.
  • LILACS - bvsalud.org - Um abrangente índice da literatura científica e técnica da América Latina e Caribe.
  • Portal de Periódicos da CAPES - Uma plataforma digital que oferece acesso a uma vasta gama de periódicos científicos, artigos, revistas, e outras fontes de informação acadêmica. Desenvolvido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)
  • Catálogo de Teses & Dissertações - CAPES - Trata-se de um repositório de dissertações e teses defendidas em universidades brasileiras s, também desenvolvido pela CAPES.

A biblioteca da UDESC elaborou um material informativo sobre revisão sistemática, um guia para quem quer se aprofundar nessa metodologia de pesquisa. Veja em: https://www.udesc.br/bu/manuais/rsl

Existe outro tipo de pesquisa que pode se confundir com a pesquisa bibliográfica que é a pesquisa documental. Trata-se de uma outra metodologia que envolve práticas próprias. Sobre a pesquisa documental, veja este outro artigo: Pesquisa Documental: utilização e abordagens metodológicas

Enfim, muito se poderia falar sobre pesquisa bibliográfica e sistemática, no entanto, o objetivo aqui é aproximar ou reaproximar as pessoas dos procedimentos de pesquisa acadêmica e mais leituras podem ser necessárias para o aprofundamento da compreensão.


Referência:

SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. 23.ed. rev. e atual. São Paulo: Cortez, 2007.