Contornos - Educação e Pesquisa: Sobre o "descobrimento" do Brasil

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Sobre o "descobrimento" do Brasil

"Em 1992, por ocasião dos 500 anos de viagem de Colombo, houve intenso e extenso debate nas Américas e na Europa sobre o vocabulário adequado para descrever a chegada dos europeus ao continente. Uma crítica devastadora foi então feita ao uso da palavra descobrimento, por representar um insuportável etnocentrismo europeu. (...) Sete anos depois, o Brasil entra na febre dos 500 anos. 

No entanto, nas celebrações oficiais e oficiosas, nas reportagens da mídia, nas exposições, nos seminários acadêmicos, a terminologia empregada para descrever a chegada dos portugueses às nossas praias é uma só. Com uma ou outra exceção, em geral vinda de algum chato inconveniente, celebra-se o descobrimento do Brasil. (...) 

O genocídio que a palavra encobre seria fenômeno exclusivamente espanhol, fruto da truculência dos conquistadores. Em nosso caso, as relações com os nativos teriam sido amigáveis. Nada melhor para exprimir esta visão do que a consagração da carta de Caminha, como certidão de nascimento do país. (...) 

O mesmo empreendimento colonizador que dizimou em três séculos 3 milhões de nativos foi também responsável pela importação, nos mesmos três séculos, de 3 milhões de escravos africanos, cuja sorte não foi melhor. Se as palavras não são para encobrir as coisas, só há uma expressão para descrever o que se passou desde 1500: conquista com genocídio de índios, seguida de colonização com escravidão africana. Daí viemos, em cima disso foram construídos os alicerces de nossa sociedade. Descobrir o Brasil de hoje é tirar o véu que o descobrimento lança sobre este lado inescapável de nossa herança."

CARVALHO, José Murilo de. O encobrimento do Brasil. Folha de São Paulo, 3 de outubro de 1999.




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